VIKINGS, BACALHAU E ARTE CONTEMPORÂNEA

ANDANDO PELOS CANTOS #3 / / LOFOTEN

por Olav Lorentzen

ANDANDO PELOS CANTOS #3 Lofoten, Noruega //



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Vikings, Bacalhau e a Arte Contemporânea. Você deve estar se perguntando: Arte Contemporânea? Pois é, por mais incrível que pareça, se não bastasse a grandeza da paisagem deste arquipélago de ilhas no norte da Noruega, este lugar vasto e quase inabitado é o lar de um dos projetos artísticos mais importantes da nossa geração.

Lofoten fica localizado dentro do circulo ártico, mais ao norte do que a Islândia e o Alaska. Mas não se assuste. Graças a corrente do golfo, que acerta as ilhas em cheio, a temperatura da agua permanece constante o ano todo, por volta dos 5 graus célsius, e isto possibilita que pessoas vivam lá. A milhares de anos.

As descobertas arqueológicas vikings mais antigas foram encontradas nesta área. Acreditasse que eles viviam de agricultura e da caça de baleias. Uma pratica que permanece até hoje.

Por falta de conhecimento pensamos sempre em condenar povos que caçam baleias, mas os noruegueses de Lofoten o fazem para consumo próprio e em determinada época do ano, sempre tendo em mente a preservação da espécie. E só por isso conseguiram continuar lá por tanto tempo. Inclusive, a população de lá é uma das mais cultas em relação ao equilíbrio ambiental marítimo.

A pesca do bacalhau é uma das principais responsáveis para o crescimento de Lofoten. Quase todo o bacalhau que comemos no Brasil e na Europa vem de lá.



Não sei se já esta dando para criar uma imagem, mas vou tentar ajudar.

Imagina que você acaba de desembarcar em um conto de fadas. Praias de areia branca e aguas cristalinas. Ao fundo casas de madeira antigas com telhados de grama formam um pequeno vilarejo de pescadores. Ao redor das casa infinitos varais secando bacalhau. Atrás do vilarejo, montanhas enormes com pico cheios de neve.

Isso sem contar com as auroras boreais no inverno. As milhares de cores no céu o ano todo, e o sol da meia noite no verão.

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Fui convidado para visitar Lofoten por uma amiga de Londres. A artista plástica Anne Katrine Dolven.

Anne Katrine é uma das artistas contemporâneas mais reconhecidas da Noruega e trabalha metade do ano em Londres e metade em Lofoten.

Sua casinha azul de concreto se contrasta um pouco com as casas tradicionais da ilha, apesar de estar em uma ponta bem isolada, a mais ou menos 50km do vilarejo mais próximo. Do lado da casa, uma antiga cocheira de animais foi transformada em seu atelier. Fui recebido com um jantar tradicional. Carne de Baleia. Parecida com a carne de boi, a carne de baleia é mais macia e não tem um nervo. Não é a toa que existe esta mística toda em torno do seu paladar. Os dias seguinte foram espetaculares. Surfei em uma das melhores ondas que já vi na vida. Subi montanhas a pé e visitei algumas das esculturas do projeto Skulpturlandskap Nordland. Um dos projetos mais polêmicos e contestados da historia da arte atual.

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A ideia começou com a intenção de trazer cultura para esta parte quase que esquecida da Noruega. Um dos países mais desenvolvidos do mundo, a Noruega se preocupa em oferecer os mesmos serviços públicos, sociais e culturais para todo o pais. Lofoten tem escolas, supermercados e bancos iguais a capital, Oslo. Mas estava faltando Arte.

O governo local decidiu construir esculturas em todas as ilhas assim toda a população poderia ter acesso sem tem que se deslocar centenas de quilômetros ate um museu. Mas como não tinham muito conhecimento sobre o assunto, resolveram contratar uma especialista. A curadora finlandesa Maaretta Jaukkuri. O que eles não esperavam, era o que ela iria propor.
Se o prefeito tivesse escolhido sozinho, provavelmente ele iria contratar um escultor para fazer uma escultura de bacalhau na praça principal, ou algo do tipo. Mas a ideia de Maaretta era bem diferente.

Contratar alguns dos maiores escultores contemporâneos internacionais para escolherem um lugar na ilha para botarem suas esculturas. A polemica estava criada.

O problema começou localmente. Obviamente as propostas dos artistas não eram nada parecidas com o que a população esperava. As primeiras esculturas dificilmente eram consideradas arte. E estes artistas “loucos” ainda queria colocar as esculturas em lugares remotos, como no meio da montanha ou dentro do mar.

O escândalo foi tão grande que o problema saiu da Noruega. Muitos começaram a criticar o governo por gastar este dinheiro todo com esculturas que seriam visitadas por tão pouca gente. E pior, uma muito distante da outra.

Alguns defendiam que todos tinham direito a cultura, outros diziam que um projeto deste deveria estar em uma capital mundial. A população de Lofoten já estava se sentindo descriminada. Eles não mereciam arte? Só os privilegiados, intelectuais das cidades, podiam aproveitar estas obras? Com tanta repercussão internacional, a opinião dos locais começou a mudar, e eles começaram a apoiar a ideia.

O desfecho é um projeto percursor de grande impacto no mundo da arte. Resultando na mudança de paradigma da relação da sociedade com a arte e a natureza. Uma introdução de cultura em um espaço comum diferente de todos jamais realizados. A possibilidade de uma nova visão para o ser humano.


Noruega, Maio de 2015.
Por OLAV LORENTZEN

Equipamento:
Nikon EL2
Filme: 400ASA.